Sabe aquela sensação de estar dirigindo um carro novo, superpotente, cheio de tecnologia, mas de repente você percebe que os freios não foram testados de verdade? É uma mistura de euforia e um frio na barriga, não é? Pois é, no mundo da IA para seguros, a gente está chegando bem nesse ponto.
A real é que a corrida para a automação com agentes de inteligência artificial trouxe um dilema que pouca gente está falando abertamente: a conta dos riscos pode ser bem salgada, e quem vai pagar por ela? Não estou falando de cenários distópicos de filmes, mas de processos reais, com valores milionários, que já batem à porta das seguradoras. É um futuro incerto, sim, mas que podemos e devemos antecipar.
A promessa da IA é tentadora. Um levantamento do BCG AI Radar 2025 mostra que 67% dos executivos já veem agentes autônomos como parte essencial de sua estratégia de IA. É a chance de ouro para otimizar processos, acelerar análises de sinistros, personalizar ofertas. Quem não quer mais eficiência e menos burocracia, certo? Mas aqui está o pulo do gato: agilidade sem clareza de responsabilidade é um convite ao desastre.
Minha tese é clara: a infraestrutura de clareza e execução que construímos com IA hoje definirá nossa liberdade ou nossa escravidão a processos e riscos amanhã. É a hora de olhar para os agentes de IA não só como ferramentas de produtividade, mas como entidades com potencial de causar prejuízos, e que exigem uma engenharia de confiança robusta.
Agentes de IA: a promessa e o risco
Vamos ser francos. Ninguém quer ficar para trás. O setor de seguros, que muitas vezes é visto como conservador, está se abrindo para a inovação de um jeito que não víamos há anos. Startups como a Segura estão atraindo investimentos pesados — R$ 45 milhões, coliderados pela Andreessen Horowitz — para construir infraestruturas de IA que prometem revolucionar a forma como seguradoras e corretores vendem. Isso é bom, é progresso, é o futuro chegando.
Mas junto com essa promessa, vem uma sombra. A crescente autonomia desses agentes de IA, que executam tarefas de ponta a ponta, pode levar a falhas inesperadas ou, pior, a ações que, para o sistema, fazem sentido, mas para a gente, são 'desonestas' ou erradas. E quem arca com o prejuízo? A real é que as seguradoras já estão se preparando para processos milionários causados por esses 'agentes desonestos' de IA, como apontado em análise do Financial Times divulgada pela Techmeme.
O custo real dessa disrupção, quando mal gerida, não é só financeiro. É de reputação, de confiança dos clientes, de um efeito cascata que pode abalar as bases de qualquer negócio. Não se trata apenas de 'bugs'; falamos de decisões autônomas tomadas por sistemas complexos, onde a rastreabilidade e a lógica por trás de uma ação podem ser quase impossíveis de decifrar para um humano.
Onde mora o verdadeiro valor (e o perigo)
Entenda: IA não é feature. IA é infraestrutura de execução. Não basta ter o agente mais inteligente, mais rápido ou mais "autônomo". O valor de verdade está em como essa inteligência se encaixa no seu fluxo, como ela se integra ao seu processo, e como ela se torna parte de uma rotina instalável que gera resultado repetível. Senão, o que temos é um Frankenstein digital, um amontoado de ferramentas que não conversam entre si e geram mais problemas do que soluções.
O perigo, portanto, não é a IA em si. É a ausência de uma infraestrutura de clareza em torno dela. É a falta de um playbook claro, de um padrão de memória institucional que diga: 'se a IA fizer X, a responsabilidade Y é acionada'. Sem isso, a cada nova funcionalidade, a cada nova automação, estamos ampliando o buraco de potenciais litígios e danos.
A engenharia de confiança em xeque
Minha visão é que vendas, na essência, são engenharia de confiança. No mundo da IA, isso se eleva a um novo patamar. A gente não está vendendo só um seguro; estamos vendendo a promessa de que, na hora que o bicho pegar, nossa infraestrutura, humana e tecnológica, vai estar lá para resolver. E se essa infraestrutura inclui um agente de IA que falha, essa confiança é minada.
O debate já está quente entre os grandes nomes da IA. Executivos como Sam Altman e Dario Amodei, líderes de empresas que estão na vanguarda da IA, já são considerados como potenciais alvos de responsabilidade legal por ações de seus modelos. Isso nos força a pensar: quem responde quando a IA erra? O desenvolvedor? O implementador? A seguradora que a utilizou? A resposta ainda não é clara, e essa incerteza é um risco brutal que as seguradoras precisam mapear e mitigar.
Alguém pode dizer: "João, mas você está freando a inovação! Não podemos ter medo de avançar por causa de riscos potenciais." E eu concordo, com ressalvas. Inovar sem responsabilidade é como construir um castelo de areia na beira da praia e esperar que a maré não suba. A inovação é vital, claro. Mas o futuro não pertence a quem sabe mais sobre IA, e sim a quem transforma IA em rotina, rotina em resultado e resultado em liberdade – a liberdade de escalar sem medo de desabar.
Então, o que fazer agora? A resposta não é parar, mas sim construir com mais intenção. Comece por mapear cada ponto de contato dos seus agentes de IA: onde eles tomam decisões autônomas? Quais são os limites dessas decisões? Qual o playbook de ação para cada cenário, especialmente os de exceção? A cada etapa, pergunte: como posso instalar clareza e responsabilidade aqui?
Invista em infraestrutura, não em features isoladas. Isso significa sistemas que registrem cada passo de um agente de IA, que permitam auditoria fácil e que tenham mecanismos de kill switch claros. Prepare seus times não só para operar a IA, mas para governá-la, para entender seus limites e suas implicações. A regulamentação virá, mais cedo ou mais tarde, mas a responsabilidade começa dentro de casa.
No fim das contas, a IA não é uma mágica. É uma ferramenta de alavancagem. E, como toda ferramenta poderosa, exige respeito e um manual de uso que contemple tanto o potencial quanto o perigo. O futuro pertence aos que conseguem domar essa potência com inteligência e, acima de tudo, responsabilidade.
Você está pronto para não ser pego de surpresa quando o próximo processo bater à porta, impulsionado por um agente de IA?
Referências e leituras
- Techmeme: Analysis: insurers brace for multimillion-dollar claims caused by rogue AI agents, amid concern that execs like Sam Altman and Dario Amodei could be held liable (Lee Harris/Financial Times)
- Pipefy: Agentes de IA para Seguradoras: 7 Processos para Automatizar
- CQCS: Segura levanta R$ 45 milhões para resolver a complexidade operacional entre seguradoras e corretores com IA
